O escândalo dos estados de vida


O escândalo dos estados de vida


Cristo crucificado: escândalo ontem, hoje e sempre

São Paulo oferece uma chave de leitura que atravessa os séculos: “[...] os judeus pedem sinais, e os gregos andam em busca de sabedoria; nós, porém, anunciamos Cristo crucificado, que para os judeus, é escândalo, para os gentios é loucura, mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” (1Cor 1,22-24). A cruz nunca foi sinônimo de neutralidade. Ela sempre desestabilizou os sistemas de poder, as ideologias dominantes e as falsas seguranças de cada época. Os Padres da Igreja foram unânimes em afirmar que a cruz é o critério de discernimento da verdadeira sabedoria: Santo Inácio de Antioquia via nela a marca do verdadeiro discípulo. Desejava se transfigurar a Cristo por meio do martírio e em suas cartas admoestava os fiéis a fugir das heresias que semeiam a discórdia entre a Igreja e a Cruz de Cristo. O Catecismo da Igreja Católica ensina que o mistério da cruz revela simultaneamente a gravidade do pecado e a medida do amor divino (CIC 599–618). Não se trata de um símbolo cultural, mas do centro da economia da salvação.

No mundo antigo, os judeus esperavam sinais espetaculares de um Messias político; os gregos, alguém que seguisse uma lógica racional, sem contradições, prestígio intelectual e uma religião ajustada ao desejo do homem de se autogovernar. A cruz não satisfazia nem uns nem outros. Ela contrariava expectativas, desmontava projetos humanos e revelava que a salvação não nasce do poder terreno ou da capacidade de ser efetivo, mas da entrega.

Hoje, a lógica permanece — apenas com novas máscaras.

E quem são os “judeus” e os “gregos” de hoje?

Na sociedade atual, os judeus de hoje são todos aqueles que exigem de Deus — e da Igreja — resultados visíveis, sucesso social, prosperidade material e construção ideológica do mundo. Querem um cristianismo adaptado ao mundo, terapêutico ou político. Dentro da própria Igreja, isso se manifesta quando a fé é instrumentalizada, reduzida a autoajuda espiritual ou a militância política e sua engenharia social dissociada da conversão pessoal. Tratamos do assunto, aqui no blog, no artigo “A Igreja: Economia Sacramental ou Engenharia Social?”. E os gregos de hoje? Estes absolutizam a racionalidade e o domínio sobre a natureza, o consenso acadêmico e as ideologias secularizantes que negam qualquer verdade objetiva sobre o homem. Tudo deve seguir a lógica da adaptabilidade, de uma existência que se dê de forma leve e permita que as experiências ocorram naturalmente com o corpo, identidade, família e vocação. O Magistério alerta que essa ruptura entre liberdade e verdade conduz à desintegração da pessoa e da sociedade (cf. Veritatis Splendor, 32; Doutrina Social da Igreja, Compêndio, 46).

É nesse contexto que os estados de vida cristãos — matrimônio, celibato e sacerdócio, e aqui acrescento a vida religiosa monástica — tornam-se novamente um escândalo. Eles afirmam, contra o espírito do mundo, que a vida tem uma forma objetiva querida por Deus de “estar em Cristo”, vivendo de acordo com os seus ensinamentos.

Os estados de vida como profecia viva

A Igreja ensina que os diversos estados de vida participam da sua santidade e missão (CIC 824–826). Não são caminhos concorrentes, mas complementares, necessários para o equilíbrio do Corpo de Cristo (a Igreja) e para a saúde moral da sociedade. Segundo a Doutrina Social da Igreja, quando a vocação humana perde a clareza ou tem sua visão distorcida, toda a ordem social adoece, pois a dignidade da pessoa deixa de ser reconhecida em sua origem transcendente (Compêndio da DSI, 108–109).

O matrimônio: escândalo da fidelidade e da fecundidade

O matrimônio cristão é elevado por Cristo à dignidade de sacramento (CIC 1601). Ele não é construção cultural, mas participação real na aliança entre Cristo e a Igreja (Ef 5,32). Familiaris Consortio afirma que a família fundada no matrimônio é “o primeiro e vital núcleo da sociedade” (FC 42).

Num mundo marcado pelo descarte, pelo hedonismo e pela cultura do provisório, a indissolubilidade matrimonial torna-se sinal de contradição. O Código de Direito Canônico recorda que as propriedades essenciais do matrimônio são a unidade e a indissolubilidade (cân. 1056), justamente por protegerem o bem dos cônjuges, dos filhos e da sociedade. Os ataques ao matrimônio — relativização da forma pela qual a humanidade se expressa em dois modos distintos e complementares de ser pessoa, masculino e feminino, ordenados à comunhão, e não à fusão ou à rivalidade; banalização do divórcio e rejeição da abertura à vida — ferem diretamente a ordem natural e sobrenatural. Ainda assim, famílias cristãs fiéis tornam-se hoje verdadeiras células de resistência espiritual e escolas para a humanidade. Isso não pode ser compreendido como fardo pesado para os cônjuges, mas com confiança na certeza que num mundo perturbado pelo pecado, Cristo se doa gratuitamente como força e graça para que os esposos  vivam o casamento nesta nova dimensão do Reino de Deus como nos ensina o Catecismo da Igreja Católica - CIC no número 1615.

O celibato consagrado: escândalo da liberdade interior

O celibato por amor ao Reino tem fundamento direto nas palavras de Cristo (Mt 19,12) e é reconhecido pela Igreja como sinal escatológico (CIC 1618–1620). São Jerônimo e Santo Agostinho viam no celibato consagrado um testemunho de que o coração humano foi criado para Deus. Num mundo erotizado e prisioneiro do prazer, o celibato proclama que a liberdade verdadeira nasce da doação. Vita Consecrata ensina que a castidade consagrada manifesta a primazia absoluta de Deus e antecipa a condição futura da humanidade redimida (VC 32).

O sacerdócio: escândalo da mediação

O sacerdócio ministerial existe por instituição divina (CIC 1536) e não por delegação da comunidade. Ele recorda que a salvação não é autogerida. Pastores Dabo Vobis afirma que o sacerdote é configurado a Cristo Cabeça e Pastor para servir e santificar o povo (PDV 12). Num tempo que rejeita autoridade e mediação, o sacerdócio é frequentemente atacado. Contudo, o Código de Direito Canônico reafirma sua natureza sacramental e missão insubstituível (cân. 1008–1009). Onde há sacerdotes santos, há Eucaristia, perdão e esperança.

A vida religiosa: escândalo da radicalidade evangélica

A vida religiosa, marcada pelos votos de pobreza, castidade e obediência, é reconhecida pela Igreja como forma estável de vida consagrada (CIC 915). Ela torna real e concreto que o Evangelho pode ser vivido integralmente.

Vita Consecrata descreve a vida consagrada como “memória viva do modo de existir e agir de Jesus” (VC 22). Nesse contexto, as novas comunidades, como a Comunidade Católica Shalom, atualizam o ardor das primeiras comunidades cristãs (At 2,42-47), vivendo a comunhão, missão e radicalidade evangélica no coração do mundo. Esta, como espelho da Trindade e reflexo da missão da Igreja, externa a graça da unidade ao abrigar na vivência do Carisma a complementaridade e unidade nas diversas formas de vida: celibatários pelo Reino dos Céus, casados, solteiros, sacerdotes, diáconos e seminaristas. Isto é dom - chamado - que Deus assegura aos seus membros (comshalom, Os Estados de Vida na Vocação Shalom).

Um caminho de sanidade para o mundo

A crise contemporânea é profundamente vocacional. Quando o homem perde a consciência do chamado, perde o sentido da própria existência, do autoconhecimento e sua identidade ontológica. A Doutrina Social da Igreja ensina que a ordem social justa nasce de pessoas interiormente ordenadas segundo a verdade (Compêndio, 134).

Onde há matrimônios santos, consagrados fiéis, celibatários que prenunciam a vida na eternidade e sacerdotes configurados a Cristo, a sociedade reencontra equilíbrio, esperança e sentido.

Um apelo ao discernimento e à coragem

“Pois a criação em expectativa anseia pela revelação dos filhos de Deus” (Rm 8,19). Essa manifestação acontece quando cada cristão assume, com liberdade e responsabilidade, o estado de vida ao qual foi chamado. Discernir não é escolher o que agrada, mas responder ao que Deus quer. Seja no matrimônio, no celibato, no sacerdócio ou na vida religiosa, toda vocação autêntica passa pela cruz e gera fecundidade.

Ser sal e luz hoje é aceitar ser sinal de contradição. É viver o escândalo da cruz como sabedoria de Deus, permitindo que, por meio de uma vida coerente e santa (justa), o mundo reencontre o caminho da verdade e da vida.

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